A maneira como a arte e a imprensa resistiram durante a ditadura militar é tema de exposição que acontece em São Paulo a partir de 12 de outubro de 2012. Idealizada pelo Instituto Vladimir Herzog, a mostra “Resistir É Preciso” traz obras, publicações e documentos sobre o período (1964 a 1985). Entre os destaques estão os dois atestados de óbito do jornalista que nomeia o instituto, que nunca foram expostos juntos antes.

 

Segundo Fabio Magalhães, um dos curadores da exposição, o objetivo é mostrar para a juventude um pouco da resistência cultural, principalmente após 1968, quando foi decretado o Ato Institucional número 5 (AI-5, que extinguiu os direitos civis e levou ao período de maior repressão no país). “Duas gerações nasceram e cresceram após o golpe. É para esse público que fizemos essa exposição.”

 

Para o curador, o tema é mais que atual e deverá atrair a atenção, principalmente de quem participou das manifestações de junho e julho. “Foi surpreendente ver que a juventude não pensa só em balada, mas pensa em questões nacionais e vai às ruas por benefícios para a sociedade. Considero isso positivo”, afirmou. “Parecia que os movimentos de massa haviam desaparecido do

país. Se julgava que as ideologias tinham desaparecido.”

 

Após temporada em Brasília, onde foi vista por mais de 33 mil pessoas, segundo a organização, “Resistir É Preciso” aporta em São Paulo em dois endereços: no Centro Cultural Banco do Brasil

(CCBB) e no Centro Cultural Correios. A maior parte da mostra concentra-se no CCBB.

 

Ao entrar no amplo edifício no Centro de São Paulo, o visitante encontra, logo de cara, no centro do saguão, a obra “Lute”, de Rubens Gerchman. Nas salas dos andares superiores estão expostas obras célebres da resistência, como “Seja Marginal, Seja Herói”, de Helio Oiticica, e uma das notas de um cruzeiro carimbadas com a frase “Quem Matou Herzog”, de autoria de Cildo Meireles.

Marco da repressão do Estado, a morte de Vladimir Herzog é lembrada também com documentos. O jornalista foi torturado e morto em 25 de outubro de 1975. Apesar das evidências contrárias, o Estado, à época, disse que Herzog foi vítima de “enforcamento por asfixia mecânica”. As autoridades alegavam que ele se matou enforcando-se com uma cinta amarrada à janela de uma cela do DOI-Codi, cuja sede ficava no bairro Paraíso, Zona Sul da capital paulista.

 

O erro foi retificado quase 38 anos depois: em março deste ano, por determinação do Tribunal de Justiça, foi criado um novo atestado indicando que o jornalista foi vítima de “lesões e maus-tratos” sofridos durante o interrogatório nas dependências do segundo Exército DOI-Codi”. “É a primeira vez que os dois atestados são expostos juntos. O novo atestado foi feito quando a mostra em Brasília já estava pronta”, disse o curador.

 

O subsolo do CCBB reserva uma surpresa: dentro de um cofre, suas paredes transformam-se em uma tela onde são projetados nomes de centenas de mortos pela repressão. Esses nomes seguem da direita para a esquerda até que suas letras caem em um monte formado por outras vítimas.

 

Imprensa

 

A exposição busca também apresentar a atuação da imprensa na clandestinidade, no exílio e nas bancas. Entre os painéis expostos está a coleção de Alípio Freire. Jornalista e ex-preso político, durante período em que esteve detido no Presídio Tiradentes ele reuniu obras de artistas plásticos como Sérgio Freire e Flávio Império.

No Centro Cultural Correios está exposta parte dos acervos dos fotojornalistas Luis Humberto e Orlando Brito. A dupla teve importante participação nos registros da história recente do Brasil, registrando o cotidiano político brasileiro nos “anos de chumbo”. Assim como diversos textos jornalísticos, essas imagens foram censuradas e só mais tarde se tornaram conhecidas.

A mostra gratuita fica em cartaz em São Paulo até 6 de janeiro de 2014. Depois, segue para os CCBBs do Rio (de 12 de fevereiro a 7 de abril) e de Belo Horizonte (de 5 de agosto a 5 de outubro).

Serviço:

“Resistir É Preciso”
CCBB São Paulo 
 Aberto de quarta a segunda, das 9h às 21h
 Rua Álvares Penteado, 112 – Sé, São Paulo
 (11) 3113-3651 e 3113.3652

Centro Cultural Correios
 Aberto de terça a domingo, das 11h às 17h
 Avenida São João, s/nº, Vale do Anhangabaú, São Paulo
 Telefone: (11) 3227-9461

Entrada é gratuita