Logo no início da entrevista que gerou este texto, Maria Inês Sugai questionou o motivo principal que levou a Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA) a escolhê-la como a Arquiteta e Urbanista do Ano. A pergunta ficou sem resposta, pois, no decorrer da conversa, ela mesma respondeu.

Os motivos para a escolha são muitos. E reconhecidos por quem vive a arquitetura e urbanismo no dia a dia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e em espaços da sociedade civil que atuam por cidades mais justas e igualitárias. Foi na UFSC que começou a ser desenhada sua trajetória como professora  do curso de Arquitetura e Urbanismo, mas sua presença no campus vem desde 1977, quando chegou a Florianópolis para participar de diversos projetos de construção de prédios acadêmicos. Um concurso público para docência na universidade foi o que selou o destino de Maria Inês, que começou a dar aula para turmas da graduação. Ela nunca mais parou. São 43 anos de universidade, já poderia ter se aposentado, mas permanece se dedicando hoje às aulas de turmas da graduação e pós-graduação.

“Desde a faculdade, tenho um viés para as questões urbanas. E minha trajetória está muito focada em ensino, pesquisa e extensão”, define a arquiteta e urbanista paulistana formada pela FAU/USP em 1976. O interesse pelas questões urbanas naturalmente a aproximou de outros expoentes da área: a arquiteta e urbanista Ermínia Maricato e Flávio Villaça, professor Emérito da FAU/USP. ‘Fui a primeira orientada da Ermínia no trabalho final de graduação da USP, uma profissional que foi e continua sendo minha grande referência como intelectual, urbanista e ativista social”, afirma. Villaça também é outro nome que contribuiu de forma decisiva em sua vida acadêmica, nas reflexões e nas atividades de pesquisa. Foi ele o seu orientador no mestrado e doutorado nos programa de pós graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAU-USP. “A ele devo muito do que aprendi e desenvolvi ao longa da minha formação como pesquisadora, intelectual e professora”, constata. Segundo Maria Inês, a dedicação de Villaça contribuiu para a qualificação de suas produções, o que inclui a Menção de Distinção e Louvor pela banca examinadora de sua dissertação de mestrado, em 1994, mesmo título recebido pela sua tese de doutorado, em 2002.

Se os docentes contribuíram para forjar a profissional Maria Inês, hoje é ela quem faz esse trabalho, encarado muito mais do que uma rotina profissional, mas uma dedicação à docência, aos alunos, à arquitetura e aos temas que fazem parte das pautas urbanas: em todos esses anos lecionando participou de cerca de 240 bancas de avaliação na graduação, mestrado e doutorado, além de integrar outras bancas em concursos públicos, seleção de pós-graduação, comissões julgadoras de arquitetura e muitos outros. Foi orientadora de pelo menos 135 trabalhos, incluindo uma dissertação de mestrado que culminou, mais tarde, em tese de doutorado que contou com sua co-orientação no trabalho da aluna Fernanda Maria Lonardoni, defendido na École Polytechnique Fédérale (EPFL), em Lausanne, Suíça, e que recebeu o Prêmio de Melhor tese de Doutorado de 2015 da EPFL.

A atuação nas causas urbanas está no sangue. Ao longo dos anos desenvolveu diversas atividades de extensão universitária, de assessoria técnica e de apoio às comunidades periféricas na luta pelo direito à moradia, permanência na terra ocupada, infraestrutura urbana e regularização fundiária. “Junto com os estudantes da graduação desenvolvemos projetos de urbanização, de regularização fundiária, projetos de moradias, levantamentos, cadastramentos, e diversos tipos de apoio necessários, o que inclui pareceres técnicos para garantir o direito à terra urbanizada e doação de terras da União”, pontua Maria Inês, que possui especializações em Desenvolvimento Urbano e Regional e em Utilização e Conservação em Recursos Naturais pela PPGEO-UFSC.

No IAB-SC, participou das atividades no período entre 1978 e 1981, tendo assumido o cargo de secretária-geral da entidade.  E esteve na primeira formação do SASC, na década de 1980, por onde atuou até o final dos anos 80. Já no CAU-SC, participou da chapa essencialmente feminina nas eleições de 2017, época em que foi eleito um número significativo de conselheiras. O mesmo ocorreu no pleito deste ano, onde participou da nominata da chapa de arquitetas, o Mais Arquitetas, que acabou vencendo as eleições para a gestão 2021-2023 do CAU-SC.

Reconhecimentos por sua atuação como docente também fazem parte do currículo da arquiteta e urbanista Maria Inês, autora do livro Segregação Silenciosa, publicado pela editora da UFSC. Em 2016, a Câmara Municipal de Florianópolis a homenageou com a Medalha Professor João David Ferreira Lima, pelos relevantes serviços prestados ao Ensino Superior no município. Também por 25 vezes, a última ainda neste ano, se destacou como patrona e paraninfa de turmas de formandos de Florianópolis.

 

Foto: Isamara Gabriela de Souza