Construir moradias sustentáveis levando em consideração as condições climáticas da região do Pantanal e ensinar a comunidade local os princípios da autoconstrução são os projetos do Sindicato dos Arquitetos e Urbanistas do Estado do Mato Grosso do Sul (Sindarq-MS) para 2023. Vencedores do Edital 05 de Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS) do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU Brasil) de 2022, a entidade vai reunir em torno de nove arquitetos e urbanistas para trabalhar na comunidade de Baía Negra, em Ladário (MS), com o projeto CASA ECO PANTANEIRA (através de edital de chamamento público do dia 02 ao dia 15 de fevereiro). “O acesso geográfico às comunidades ribeirinhas é complicado. Por isso, nossa ideia é abrir um chamado nas cidades próximas, como Corumbá (MS), e levar profissionais que já residam e estejam acostumados com a área, mas vai ser disponibilizado para todos os Arquitetos do estado que tenham vontade e disposição de participar”, explica a presidente do Sindarq-MS, Iva Carpes. É possível participar do projeto e se inscrever para atuar na área através do site: https://sindarqms.com.br/projeto-casa-eco-pantaneira/.

A ideia é realizar uma primeira fase de reconhecimento da área, que deve acontecer nos meses de fevereiro e março e depois desenvolver os projetos ao lado da comunidade ribeirinha residente na região. “Cada arquiteto deve atender em torno de duas ou três famílias, desenvolvendo uma moradia que de fato atenda às necessidades da população”, afirma Iva. Através do fomento do CAU Brasil, a iniciativa ainda conta com a parceria da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (FAU-UFMS), por meio da professora Andrea Naguissa Yuba, da ONG Ecoa, do seu diretor presidente, André Luiz Siqueira, e da Secretaria do Patrimônio da União (SPU/MS), com o servidor Fhelippe Werle.

As áreas pantaneiras, degradas há décadas, vêm sofrendo ainda mais desde 2018. Não apenas por conta das épocas de chuvas, mas pelas queimadas que atingiram a região ainda em 2020. Só no MS, mais de 1,7 milhão de hectares viraram cinzas. A área de Baía Negra, a primeira comunidade que deve receber o projeto, é uma unidade de conservação de uso sustentável e representa um desafio aos profissionais. De acordo com Iva, a ideia é atender a 27 famílias ou mais da região, e que cada arquiteto desenvolva o projeto em busca de residências mais resistentes, que se adaptem às épocas de secas e enchentes e mantenham as condições de área de preservação. As Casas Eco Pantaneiras vão trabalhar diretamente com a sustentabilidade, utilizando técnicas como o esgoto biodegradável para que se mantenha a preservação natural e geográfica da comunidade.

Iva também explica que o projeto pretende discutir o sistema construtivo com as famílias beneficiadas. “Com a construção das novas casas, reformas ou ampliações, queremos envolver toda a comunidade no projeto. Através de oficinas e da discussão da autoconstrução, o objetivo é transformar a região em um multiplicador e uma vitrine para o que a arquitetura é capaz de realizar”. O objetivo das entidades é, não apenas trazer maior conforto e dignidade para os beneficiados, como também incrementar a economia local através de infraestrutura e condições de comércio e turismo. A ONG Ecoa, que atua no Pantanal há mais de 30 anos, reafirma a importância do projeto. De acordo com Siqueira, antes da Baía Negra se tornar uma unidade de conversação, toda a área era impedida de realizar intervenções e melhorias nas moradias locais. A demora gerou uma precarização e um impacto da comunidade no ecossistema pantaneiro.

Quem é a comunidade ribeirinha de Baía Negra?
A comunidade fica à beira do Rio Paraguai e possui quase seis mil hectares de vastidão ecossistêmica. Hoje, é considerada uma Área de Proteção Ambiental (APA) e é gerida pela Fundação de Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural de Ladário (MS). Foi criada pelo decreto 1.735, em 2010, como uma demanda do Ministério Público Federal em parceria com a Secretaria do Patrimônio da União, para manter as famílias que necessitavam da área em prol da sobrevivência. A APA permite que a comunidade faça uso dos recursos naturais de forma sustentável e ordenando o uso do solo. Baía Negra é também a primeira unidade de conservação de uso sustentável do Pantanal e possui um conselho gestor próprio e deliberativo, pensando no bem-estar da comunidade e da região.

Foto: Diretoria Sindarq/MS